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Qua, 15 de Fevereiro de 2012 11:06

     

Lindemberg fala hoje, diz advogada de defesa   

A advogada de defesa de Lindemberg Alves disse nesta quarta-feira (15), ao chegar ao fórum de Santo André (Grande São Paulo), que o réu vai falar hoje, no terceiro dia do julgamento. Ele é acusado de matar a ex-namorada Eloá Pimentel, 15, depois de mantê-la como refém por cerca de cem horas em outubro de 2008.“Estou muito otimista e muito confiante que o princípio da descoberta da verdade real será aplicado nesse plenário. Ele [Lindemberg] fala hoje”, disse Ana Lucia Assad. O réu chegou por volta das 8h45 ao fórum.O termo “princípio da descoberta da verdade” causou polêmica ontem, quando a juíza Milena Dias disse que ele não existe ou tem outro nome. “Então a senhora precisa voltar a estudar”, disse a advogada à juíza. Ao chegar ao fórum, Assad também disse que vai levar o júri até o fim. “Só saio desse plenário com a decisão”, falou. Ontem, a advogada ameaçou abandonar o plenário pela segunda vez. Antes de Lindemberg falar, a última testemunha arrolada pela defesa, o agente do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) Paulo Sergio Schiavo, será ouvida.Depois dessas etapas, os debates são abertos, com uma hora e meia para a acusação e uma hora e meia para a defesa, além da réplica e da tréplica. Somente depois disso, os jurados vão se reunir para discutir o caso e, depois, a juíza lerá o veredicto.O segundo dia de julgamento teve como destaque a versão dos familiares da vítima sobre o caso. O cárcere terminou com a morte da jovem e com a amiga dela Nayara Rodrigues baleada.Os dois irmãos de Eloá prestaram depoimento nesta terça-feira (14). O primeiro foi Ronickson Pimentel, 24, o irmão mais velho. Ele afirmou que Lindemberg é "um monstro", embora sua família o tratasse como "um filho". “Ele é um monstro, é capaz de tudo”, afirmou Ronickson, que era fuzileiro naval e hoje é policial militar. A testemunha afirmou que o comportamento de Lindemberg na frente da família de Eloá era completamente diferente da sua postura na rua –geralmente uma pessoa briguenta, especialmente quando jogava futebol.De acordo com o depoente, Lindemberg tinha aprovação da família. "Ele era tratado como um filho pelos meus pais", afirmou o irmão, que encarou o réu durante o depoimento.Ronickson disse, porém, que não aprovava o namoro da irmã, apenas o ‘aceitava’ porque Eloá gostava muito de Lindemberg. Segundo ele, Eloá vivia chorando por conta dos problemas no relacionamento com o ex-namorado. “Dizia a ela ‘você não merece uma pessoa dessa, que te faz sofrer. Você é muito nova, tem muita coisa para conhecer’.” Ronickson se emocionou ao citar o impacto da morte de Eloá para o irmão mais novo, Everton Douglas, 17. “Meu irmão se fechou bastante. Acho que ele se sente um pouco culpado porque foi ele que apresentou Lindemberg para minha irmã. Eles eram amigos.” Ao dar seu depoimento mais tarde, Everton confirmou que “infelizmente” era muito amigo de Lindemberg. O irmão mais novo disse que jogava bola todo o fim de semana com o réu, que morava no mesmo conjunto habitacional da família de Eloá. “Nós jogávamos futebol e era sempre ele quem causava as brigas”, relembrou, citando o comportamento explosivo de Lindemberg. Sobre o sentimento que nutre atualmente pelo réu, a testemunha disse: “No começo eu sentia muita raiva, muita mágoa. Agora só sinto pena. É um ser insignificante para mim. Ele não pode ser considerado ser humano”.

"Não vi arrependimento”

A mãe de Eloá, que foi arrolada como testemunha da defesa na segunda-feira, chegou a entrar no plenário para depor, mas foi impedida pela advogada Ana Lúcia Assad, que voltou atrás e dispensou o depoimento. No período em que esteve no plenário, Ana Cristina Pimentel encarou o réu. "Não vi arrependimento nele, ele não pediu perdão", afirmou depois aos jornalistas. Ela disse que se sentia humilhada por ter sido dispensada pela defesa e disse que gostaria de ter falado. Ela completou que está preparada para ouvir o que Lindemberg tem a dizer no plenário. "O pior já passou, que foi perder minha filha", ressaltou. Segundo a mãe, o réu fez um gesto com as mãos, interpretado por ela como um pedido para que ela "limpasse a barra" dele.Ana Cristina ainda lembrou o dia do início do cárcere. "Eu tive um pressentimento: eu disse para a Eloá e para o meu filho mais novo não abrirem a porta se ele fosse lá. Mas ele foi e acabou entrando. Não entendo de lei, mas acho que ele tem que continuar preso", afirmou.

Policiais falam sobre negociação

Também prestaram depoimento nesta terça outras testemunhas de defesa, entre elas dois jornalistas que fizeram a cobertura do caso. A advogada de Lindemberg, Ana Lúcia Assad, já deixou claro que a linha da defesa é tentar mostrar que a imprensa e a ação da polícia também contribuíram para o fim trágico do caso. No primeiro dia de julgamento, foram exibidas reportagens de diversas emissoras de televisão, incluindo uma entrevista com o réu durante o cárcere, e trechos das negociações com a polícia. Dois policiais que participaram das negociações para libertar Eloá foram arrolados como testemunhas pela defesa. O delegado Sérgio Luditza disse que os planos de resgate mudaram quando o réu disse a seguinte frase: “eu estou ouvindo um anjinho e um capetinha e o capetinha está vencendo". O delegado afirmou que "estava tudo caminhando para a libertação dos reféns” até esta frase, que foi o "estopim" para a invasão da PM ao apartamento.Também prestou depoimento por cerca de 4h o agente do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) Adriano Giovanini. Ele disse que Lindemberg “espancava muito Eloá durante o cárcere” –ao ouvir a frase, a mãe da jovem, que está na plateia, chorou muito. De acordo com o agente, o réu anunciava constantemente que ia matar a jovem e cometer suicídio. Segundo Giovanini, um tiro disparado dentro do apartamento motivou a invasão do local.O agente também foi questionado sobre a volta da outra refém, Nayara Rodrigues, ao cativeiro. “A volta da Nayara não foi planejada, foi um excesso de confiança na Nayara porque o Lindemberg tinha dito que se entregaria na presença dela e do irmão mais novo de Eloá”, alegou.O réu invadiu o apartamento de Eloá, armado, quando a ex-namorada estava reunida com Nayara e outros dois amigos para fazer um trabalho de escola. Ele liberou os amigos homens no primeiro dia. Nayara foi liberada depois, mas retornou após ser levada para perto do cativeiro pelos policiais.

Advogada polêmica

A advogada de defesa de Lindemberg Alves, Ana Lúcia Assad, voltou a causar polêmica durante o julgamento de seu cliente. Após encerrar suas questões para a perita da Polícia Civil Dairse Aparecida Pereira Lopes, uma das testemunhas de defesa ouvidas ontem, Assad pediu a juíza do caso para fazer mais algumas perguntas, o que foi indeferido pela magistrada.“Em nome do princípio da verdade real, eu quero ouvir a testemunha de novo”, alegou a defensora. “Esse princípio não existe ou não tem esse nome”, retrucou a juíza Milena Dias. “Então a senhora precisa voltar a estudar”, disse a advogada. Antes que a juíza pudesse responder a ofensa, a promotora Daniela Hashimoto interveio e disse que Assad poderia responder por desacato se fizesse comentários como esse. Ao fim, a magistrada permitiu que as novas questões fossem feitas.Assad questionava a perita sobre um erro na numeração das armas que constavam no laudo. De acordo com Lopes, a troca de números de fato ocorreu, mas o erro já havia sido retificado.

Primeiro dia

 O primeiro dia de julgamento durou pouco mais de nove horas e foi encerrado às 20h de segunda-feira (13). As quatro testemunhas que prestaram depoimento confirmaram que Lindemberg fazia ameaças de morte durante o cárcere privado. O testemunho mais esperado do dia era o da amiga de Eloá, Nayara Rodrigues, que foi feita refém junto com a jovem. Nayara pediu que Lindemberg fosse retirado da sala enquanto ela falasse.Outros dois amigos de Eloá, que também foram mantidos reféns, afirmaram que Lindemberg os ameaçava de morte. "Ele dizia que ia fazer uma besteira", disse Victor Lopes de Campos respondendo às perguntas da promotora Daniela Hashimoto. Já Iago Oliveira afirmou que "ele ameaçava a Eloá a toda hora, e dizia que ela não ia sair viva de lá: ou ele ia matar todo mundo e se matar, ou matar a Eloá e se matar".O sargento Atos Antonio Valeriano, policial militar que iniciou o trabalho de negociação com Lindemberg, disse que o jovem estava nervoso e dizia que “ia matar os quatro” e depois ameaçava também se matar. Veja aqui como foi o primeiro dia.

Entenda o caso

Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu o apartamento de sua ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, 15, no segundo andar de um conjunto habitacional na periferia de Santo André, na Grande São Paulo, no dia 13 de outubro de 2008. Armado, ele fez reféns a ex-namorada e outros três amigos dela, que estavam reunidos para fazer um trabalho da escola.Em mais de cem horas de tensão, Lindemberg chegou a libertar todos os amigos, mas Nayara Rodrigues acabou voltando ao cativeiro, no ponto mais polêmico da tragédia --a polícia, que trabalhava nas negociações, foi bastante criticada por ter permitido o retorno.Em depoimento, Nayara afirmou que, após ter sido liberada, foi procurada por policiais que queriam que ela tentasse convencer Lindemberg a libertar Eloá pelo telefone. Então ela os acompanhou até o local do sequestro e foi orientada pelo rapaz ao celular a subir as escadas. Nayara disse que Lindemberg prometeu que os três desceriam juntos, mas, quando chegou à porta, viu que ele estava com a arma apontada para a cabeça de Eloá. Então, ele puxou Nayara para dentro do apartamento e não a libertou mais.Mais tarde, policiais militares do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) invadiram o apartamento, afirmando que ouviram um estampido do local. Em seguida, foram ouvidos tiros. Dois deles atingiram Eloá, um na cabeça e outro na virilha, e outro atingiu o nariz de Nayara. Eloá morreu horas depois. Lindemberg foi preso.O réu é acusado de cometer 12 crimes, entre eles homicídio duplamente qualificado por motivo torpe, tentativa de homicídio (contra Nayara Rodrigues e contra o sargento Atos Valeriano), cárcere privado e disparos de arma de fogo. Se for condenado por todos os crimes, a pena, somada, pode ser superior a cem anos de prisão. 

 

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